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- Senhor Doutor, quero soltar assim as asas e voar para bem longe...
- Mas para bem longe do quê?!
- Para longe de mim mesma. Se para bem longe ou se para suficientemente perto ainda não sei. Depende do preço da viagem.
- Quanto tens para gastar?
- Uma vida inteira e mais uns trocos rabiscados numa folha qualquer...
- Guarda a vida para ti. Fico com os trocos. Tinha-te dito para fugires do papel...
- Como? Não consigo...eu e ele somos a mesma e a única coisa...uma alma amarrotada atirada para o canto de um lugar qualquer.
- Fico com os trocos e tu ficas com a vida inteira. E ainda te dou a chave para voares de vez em quando.
- Mas quem lhe diz que uma vez a porta aberta eu voltarei para a mesma prisão?
-Porque és tu tanto o guarda como o prisioneiro.

...estou assim como quem à espera que o tempo passe mas sem saber se o que passa é ele ou sou eu nas mãos da vida que aportaram suavemente ao cais parado de onde se soltam as futuras ilhas da solidão...


...deito-me dentro de mim mesma debaixo do grito surdo que me envolve dos pés à cabeça e sinto o frio que arranha as costas do calor que faz lá fora e enquanto o último se volta eu escondo-me debaixo da almofada de gelo...sinto-me a Rainha do Inverno no meu próprio reino abandonado...


...as horas soltam-se do meu cabelo, dos meus dedos, do meu corpo, da pele húmida, da alma lânguida, do tempo sem fim materializado em mim, rosto de menina-mulher, de face dupla, asas negras e brancas enquanto espera a redenção e a crença abençoa a sua falta de fé e ri de todo o sistema inventado pela humanidade...da qual parece fazer parte... ...não acreditem em mim que eu também não...

...trago o sangue original da eternidade congelado nas veias do mundo e de cada vez que este corre e circula paro em segunda fila e não deixo passar mais nada, mais ninguém, nenhum pensamento ou emoção...o bloqueio sou eu nas mãos que trazem de um lado o crucifixo e do outro o punhal...que a lança há muito que se perdeu...


...a minha demanda toma-me em espirais elípticas que me afastam do sentido verdadeiro da questão. Entretanto, perco-me na memória apagada da dita questão e o momento assemelha-se a vazio enquanto olho para as profundezas deste ser que se desmancha em armadilhas de palavras...


...o que poderá ser esta questão?!..

...tudo está por detrás da luz...aparente luz que faz as sombras desenharem-se do outro lado da minha alma...o lado negro ou o lado verdadeiro?

...afundo-me no total estado de consciência que me arrasta noite fora por entre sinais de sentido proibido e de beco em saída. Sei quantas estrelas povoam o meu céu nocturno e quando fecho os olhos o rasto do seu brilho continua a alertar-me para a minha estranha lucidez. Os ruídos e os fantasmas dançam à minha volta numa total amplitude orgíaca e surrealista...voam as palavras entre os cantos (in)dementes do meu pensamento. Entrecruzo-me, fugindo, pelos fios da teia e esqueço-me de que a aranha sou eu. Eu que teço, eu que esqueço, eu que corto, eu que persigo, eu que fujo, eu que reconstruo, eu que uso, eu que caio, eu que destruo, eu que me levanto, eu que me reconheço perante o espelho nos olhos dos outros. A imagem que eles encontram, por detrás deles, sorri-me enganadoramente. Sombra matreira e maquiavélica que não me abandona nunca. Falso anjo que pinta as asas de branco...as asas de plástico que comprou numa loja de esquina, para substituir aquelas que se queimaram por tanto querer.
Milhões de pensamentos iluminados e obscuros em trânsito caótico, buzinando às horas que passam, sem fim a não ser aquele que se faz anunciar pela estrela da manhã. Milhões de rastos de frases debruçados na varanda do meu cérebro, apontando o meu contínuo pestanejar. Enrolo-me nas falsas asas; incómodas falsas asas...
Entrada interdita a falsos anjos.
E eu que só queria apenas adormecer...